Abaixo segue a entrevista concedida por Edgar Morin para O Globo no dia 25 de outubro de 2015. Nesta entrevista são discutidos tópicos como:
- Modelo Ideal de Educação;
- Problemas do Modelo de Ensino Atual;
- Conceito de Transdisciplinaridade;
- Currículos das Escolas;
- Sistema Brasileiro de Ensino;
O Globo: Na sua opinião, como seria o modelo ideal de educação? Edgar Morin:
É preciso desenvolver o senso crítico dos
alunos. O papel do professor precisa passar por uma transformação, já
que a criança não aprende apenas com os amigos, a família, a escola.
Outro ponto importante: é necessário criar meios de transmissão do
conhecimento a serviço da curiosidade dos alunos. O modelo de educação,
sobretudo, não pode ignorar a curiosidade das crianças.
O Globo: Quais são os maiores problemas do modelo de ensino atual? Edgar Morin:
O
modelo de ensino que foi instituído nos países ocidentais é aquele que
separa os conhecimentos artificialmente através das disciplinas. E não é
o que vemos na natureza. No caso de animais e vegetais, vamos notar que
todos os conhecimentos são interligados. E a escola não ensina o que é o
conhecimento, ele é apenas transmitido pelos educadores, o que é um
reducionismo. O conhecimento complexo evita o erro, que é cometido, por
exemplo, quando um aluno escolhe mal a sua carreira. Por isso eu digo
que a educação precisa fornecer subsídios ao ser humano, que precisa
lutar contra o erro e a ilusão.
O Globo: O senhor pode explicar melhor esse conceito de conhecimento? Edgar Morin:
Vamos
pensar em um conhecimento mais simples, a nossa percepção visual. Eu
vejo as pessoas que estão comigo, essa visão é uma percepção da
realidade, que é uma tradução de todos os estímulos que chegam à nossa
retina. Por que essa visão é uma fotografia? As pessoas que estão longe
são pequenas, e vice-versa. E essa visão é reconstruída de forma a
reconhecermos essa alteração da realidade, já que todas as pessoas
apresentam um tamanho similar.
Todo conhecimento é uma tradução, que é seguido de uma reconstrução, e
ambos os processos oferecem o risco do erro. Existe outro ponto vital
que não é abordado pelo ensino: a compreensão humana. O grande problema
da humanidade é que todos nós somos idênticos e diferentes, e precisamos
lidar com essas duas ideias que não são compatíveis. A crise no ensino
surge por conta da ausência dessas matérias que são importantes ao
viver. Ensinamos apenas o aluno a ser um indivíduo adaptado à sociedade,
mas ele também precisa se adaptar aos fatos e a si mesmo.
O Globo: O que é a transdisciplinaridade, que defende a unidade do conhecimento? Edgar Morin:
As
disciplinas fechadas impedem a compreensão dos problemas do mundo. A
transdisciplinaridade, na minha opinião, é o que possibilita, através
das disciplinas, a transmissão de uma visão de mundo mais complexa. O
meu livro “O homem e a morte” é tipicamente transdisciplinar, pois busco
entender as diferentes reações humanas diante da morte através dos
conhecimentos da pré-história, da psicologia, da religião. Eu precisei
fazer uma viagem por todas as doenças sociais e humanas, e recorri aos
saberes de áreas do conhecimento, como psicanálise e biologia.
É preciso estabelecer um jogo dialético entre razão e emoção. Descobriu-se que a razão pura não existe. Um matemático precisa ter paixão pela matemática. Não podemos abandonar a razão, o sentimento deve ser submetido a um controle racional. O economista, muitas vezes, só trabalha através do cálculo, que é um complemento cego ao sentimento humano. Ao não levar em consideração as emoções dos seres humanos, um economista opera apenas cálculos cegos. Essa postura explica em boa parte a crise econômica que a Europa está vivendo atualmente.
O Globo: A literatura e as artes deveriam ocupar mais espaço no currículo das escolas? Por quê? Edgar Morin:
Para
se conhecer o ser humano, é preciso estudar áreas do conhecimento como
as ciências sociais, a biologia, a psicologia. Mas a literatura e as
artes também são um meio de conhecimento. Os romances retratam o
indivíduo na sociedade, seja por meio de Balzac ou Dostoiévski, e
transmitem conhecimentos sobre sentimentos, paixões e contradições
humanas. A poesia é também importante, nos ajuda a reconhecer e a viver a
qualidade poética da vida. As grandes obras de arte, como a música de
Beethoven, desenvolvem em nós um sentimento vital, que é a emoção
estética, que nos possibilita reconhecer a beleza, a bondade e a
harmonia. Literatura e artes não podem ser tratadas no currículo escolar
como conhecimento secundário.
O Globo: Qual a sua opinião sobre o sistema brasileiro de ensino? Edgar Morin:
O
Brasil é um país extremamente aberto a minhas ideias pedagógicas. Mas, a
revolução do seu sistema educacional vai passar pela reforma na
formação dos seus educadores. É preciso educar os educadores. Os
professores precisam sair de suas disciplinas para dialogar com outros
campos de conhecimento. E essa evolução ainda não aconteceu. O professor
possui uma missão social, e tanto a opinião pública como o cidadão
precisam ter a consciência dessa missão.
Mini-Currículo de Edgar Morin:
Durante a Segunda Guerra Mundial, participou da Resistência Francesa.
É considerado um dos principais pensadores contemporâneos e um dos principais teóricos da complexidade.
Obrigado!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
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